Queria começar por agradecer à Câmara de Comércio de Angra do Heroísmo e ao Exm.º amigo Gilberto Vieira, que amavelmente me convidaram para participar neste prestigiado encontro. Vou defender aqui os empreendimentos turísticos pequenos, como “chave” para fazer grande a Região.
A grande questão é: Que Futuro para o Turismo? A clivagem entre a hotelaria dos gigantes e a dos pequenos pode vir a assumir contornos de uma verdadeira idiossincrasia turística. Hoje em dia, só mentes pouco brilhantes podem ter dúvidas sobre a afirmação do Turismo no espaço rural e em habitações particulares, como tipologia de alojamento preferencial e cada vez mais procurada. Sendo recebidos com um tratamento altamente personalizado e num estabelecimento do tamanho de uma casa, por grande e bonita que seja, os hóspedes sentem-se salvaguardados, protegidos e mentalmente relaxados, criando defesas contra a delapidação maciça e destravada dos recursos naturais, a crónica falta de espaço e a extinção das boas maneiras, que observam no seu mundo de todos os dias.
O trilho insular de pequenas unidades turísticas em espaço rural é inevitável, face à deterioração rápida das sociedades continentais e aos implícitos condicionamentos ambientais, extremamente negativos. No ano passado foram consumidas na Região 372 mil toneladas de cimento, o recorde até então. Em 6 anos, o consumo deste material duplicou nos Açores e este crescimento não tem paralelo noutras regiões do País. É verdade que a construção civil estava aqui subdesenvolvidas, mas ir depressa não quer dizer, automaticamente, que o rumo está certo. A aspereza e a fragmentação do espaço rural das ilhas açorianas, em relação às condições de outros países, já não são consideradas como obstáculo ou atraso, que é preciso colmatar-se com mamarrachos, novas estradas, carros de aluguer e parques de estacionamento. É preferível restaurar edifícios antigos com materiais ligeiros, mais complicados e talvez mais caros, mas para sempre muito mais quentes e apelativos do que o betão, mais vale inventar novas aldeias de casas em pedra. É preciso lembrarmo-nos de que, se transformarmos os Açores num Algarve, cimentando as ilhas e apetrechando-as com toda a tralha turística, mais ninguém no futuro pagará uma passagem tão cara para voar até aqui, com a agravante dos transportes que todos conhecem! O objectivo da recepção turística no arquipélago não deveria ser o de acelerar visitas de grandes grupos por pouco tempo nas ilhas, mas sim de preserva-las interessantes como elas são, incentivando estadias demoradas para a sua “descoberta”, que teria de se realizar da forma mais aventurosa possível!
Não obstante todos os indicadores e as boas ideias, estamos a assistir a uma acelerada concentração da oferta turística em contentores king-size, situados em contextos altamente urbanizados e promovidos, paradoxalmente e sem vergonha nenhuma, através das imagens dos espaços…rurais dos Açores. As Flores, por exemplo, ainda não têm voos aos Domingos, mas são as suas paisagens que ajudam a vender os hotéis das outras ilhas. Visto que o espaço rural ainda caracteriza a grande maioria do nosso território, o caminho a seguir, evidentemente, não será o da construção de auto-estradas ou de grandes unidades hoteleiras. Estas últimas têm vindo recentemente a legalizar a prostituição do Turismo Regional, ao praticar preços irrisórios para movimentar as baixas taxas de ocupação invernal. A banalização do turismo açoriano, perpetrada com a venda das ilhas ao desbarato para manter estruturas economicamente insustentáveis na época baixa, quando não na alta, é com certeza a mais preocupante de todas as assombrosas consequências da cedência ao turismo de massa. Sabemos que haverá consequências, porque a louvável organização de eventos e congressos interessantes, como por exemplo este e por muitos que possa haver, simplesmente não chega para rentabilizar unidades sobredimensionadas: as existentes em 2003 e os novos hotéis já previstos, chegam e sobram.
Analisemos, agora, a Sazonalidade turística no Arquipélago dos Açores. É lógico que, no Inverno, pouca gente nos queira visitar: vamos pintar o céu de azul quando está cinzento? No Inverno, o Tempo está frequentemente mau, impedindo a capitalização dos abundantes recursos naturais, o Mar está muitas vezes “impróprio para consumo” e, como todos reconhecem, as actividades de Animação e Diversão - que poderiam servir de contrapeso - estão muito aquém do desejável, sobretudo se comparadas com aquelas desenvolvidas noutros destinos turísticos mais “antigos”. O de conseguirmos fazer como os outros, só aparentemente constitui um desafio, tratando-se, na realidade, de uma ingénua tentativa de aproximação entre padrões incompatíveis. A teimosia galopante de vencer esse aparente desafio, parece dedicar-se exclusivamente a S. Miguel, Terceira, Faial e Pico (=quarto gateway da Região que está quase pronto), ilhas que estão a ser dotadas de macro-estruturas de recepção, porque as restantes, muitas vezes no Inverno, nem sequer conseguem receber… os aviões. E ainda bem que não conseguem.
Na língua chinesa, a palavra “Crise” coincide com “Oportunidade”; não será que a nossa melhor animação seja a ausência de animação, ou uma pacata sensibilização cultural que ainda não desenvolvemos? O que significa afinal “Animação”? Não será que a pobreza da nossa rede rodoviária constitua a riqueza de uma paisagem sem viaturas? A maioria dos visitantes destas ilhas preferirá ainda o perfume de uma bosta de vaca ao cheiro tóxico dos escapes dos carros, mesmo que esteja a piorar bastante a qualidade intelectual e a atitude dos turistas nos Açores. Isto deve-se à sua introdução em grandes números, transportados e alojados ao quilo, praticando-se o hediondo e condenável crime de estandardizar o Arquipélago, por Natureza tão exótico e variado!
Realmente e sem tirar nada ao esforço de penetração nos mercados nórdicos que acho uma óptima aposta, toda a gente diz que o sueco incrédulo que no Inverno vem aos Açores ao preço de um fim-de-semana na sua terra, parece não dar-se a grandes gastos. Se calhar antes de partir nem sequer sabia localizar os Açores no mapa e, transferido como um prisoneiro entre aeroportos, vem parar a uma ilha chuvosa, alojado num contentor de betão sem lareira. Pelo contrário, o visitante em alojamento rural, normalmente turista individual de categoria intelectual elevada, ou que viaja em pequenos grupos altamente especializados no seu alvo turístico, escolhe quase sempre restaurantes requintados, excursões culturais, whale-watching ou artesanato local. Obviamente este turista, visto não ser parvo, aparece muito menos quando a Estação não presta, ou quando não há baleias.
Em vez da extrema estandardização da oferta turística, que está na base das ideias, da linguagem e dos estilos de vida da sociedade de massas, a Sociedade Açoriana do Século XXI deveria apostar na segmentação e na diversidade. Deveria esquecer o princípio de “O maior é melhor” e dar licença à diferença individual e sub-cultural, ter a coragem de propôr ideais diferentes de ambiente, progresso, evolução, tempo e espaço, aceitando os seus próprios, incontornáveis padrões climáticos e geográficos, sem ir contra a sua própria Natureza.
Não será que o grande desafio da Sazonalidade é aceitá-la como ela é e casar com ela? Porquê querer trabalhar para o Mercado durante 11 meses em 12?
Pessoalmente, ainda gosto de continuar os estudos na “Arte de Bem Receber”, beneficiando do constante intercâmbio cultural que as actividades de recepção turística proporcionam, e ando há anos à procura da alquimia, só aparentemente quimérica, de uma actividade que me permita dedicar-me a ela, sei lá, só 8 meses, ou quiçá 6 meses por ano. Aliando Vocação e Matemática ao seu trabalho, uma pessoa deveria conseguir governar-se e, se a mesma Matemática não fosse, muitas vezes, só mera opinião, toda a actividade economicamente orientada de um indivíduo, praticada por um período inferior a 6 meses por ano, seria considerada um excelente trabalho. Quem trabalhasse 8-10 meses teria um mau trabalho e, se alguém trabalhasse 11 meses em 12, estaria mais próximo da escravidão do que da tão falsamente apregoada “independência económica”, o que já quase toda a gente percebeu.
Porque não encarar um “6 em 12″, a acentuadíssima Sazonalidade turística açoriana, como uma grande dádiva, que já no século XVI teria excitado pela sua elementaridade o Pedro Nunes, Pai da Matemática Portuguesa? O meu entendimento é que, em vez de tentarmos vender a qualquer preço um duvidoso destino invernal como os Açores, deveríamos apostar tudo na qualidade durante o Verão e na potenciação das estações intermédias; o Inverno estaria reservado às nossas férias, para destinos francamente mais aliciantes, ou ao descanso com a família e aos folgados trabalhos de manutenção e preparação do Verão sucessivo. A médio prazo, sem sonhar nem contar com os apoios prometidos pela legislação, é um objectivo que pode conseguir-se perfeitamente, explorando estruturas pequenas ou médias. Ao contrário das grandes, obrigadas à importação de recursos humanos de países longínquos e a funcionarem todo o ano, nem que seja só para aquecer. Preterindo-se ou adiando-se, na mentalidade do pequeno operador turístico açoriano, os Domingos, os outros feriados religiosos e “os copos” durante cerca de 6 meses, poderia alcançar-se uma alta produtividade turística sazonal, que deixaria muito tempo livre para os restantes períodos do ano.
A economia turística pública e privada pode canalizar os seus apetites para outros bolos ou investimentos, como a melhoria dos acessos ao mar, a sinalização dos caminhos pedestres e a construção de novos percursos, em vez de estradas de penetração que beneficiam só meia dúzia de jipes de lavradores e que já são suficientes. Podem editar-se livros e material turístico de qualidade, lançar-se a Semana do Araçã em Outubro, fomentar-se os transportes aéreos e marítimos e o artesanato, formar-se pessoal para a hotelaria e o excursionismo ao ar livre, ou construírem-se barcos, piscinas, pavilhões desportivos, ginásios, teatros ou casas de espectáculo (ergo Animação) quando se quiserem fazer obras grandes.
Cobiça e Megalomania não são sinónimos de Hotelaria, cujo conceito tem de ser repensado, inspirado não só num curso de contabilidade e gestão de empresas, ou de balcão, restauração e quartos com viagem de finalistas em peregrinação a Fátima, mas também em aulas sobre arquitectura tradicional, budismo, plantas terapêuticas endémicas e jardinagem paisagista, por puro exemplo.
Há preocupantes evidências de que, no tempo presente, muita coisa já não funciona como deveria ser: para o demonstrar, vou introduzir a elucidativa referência da Ilha das Flores, que obedece ao Arquipélago dos Açores. Ilha considerada por todos os seus simpatizantes, juntamente com S. Jorge talvez, como a mais pedestre dos Açores, tem trilhos de fazer inveja a destinos turísticos de qualquer latitude. Depois de um primeiro levantamento e ordenação dos caminhos concelhios em 1995, levados a cabo por mim e pela autarquia das Lajes sob o impulso do seu então Presidente, o inesquecível Cristiano Gomes, e a subsequente edição do roteiro dos trilhos do Concelho de Santa Cruz em 1999, em 2001 e 2002 a Secretaria da Economia decidiu sinalizar os dois trilhos principais da Ilha das Flores. Iniciativa por sinal muito boa e que continua, prevendo-se já neste ano de 2003 a marcação de outros trilhos.
Recuando um pouco no tempo e espremendo-se as promessas dos políticos açorianos nos últimos anos, sobre o Futuro do Turismo na Região, o sumo que foi possível obter-se tem sabor a construção de grandes hotéis nas 3 ilhas principais, sem receio ou sem defesas contra a estandardização, e um cheirinho a obrigatoriedade de preservar as ilhas pequenas da aplicação dos mesmos modelos turísticos estandardizados. Em primeiro lugar e como não podia deixar de ser, por não serem economicamente viáveis, e só depois porque, pela própria noção do termo, cada “ilha” tem de se promover exactamente como algo de peculiar. Devia acrescentar-se o adjectivo “pequena”, porque “ilha grande”já pode ser sinónimo de lugar estandardizado.
Seja como for, isto na prática é completamente falso, não se está a verificar, as promessas não foram cumpridas. Não foi por se terem começado a sacrificar as ilhas grandes ao turismo dos “muitos & todos iguais”, que ficaram particularmente protegidas as ilhas pequenas. A Ilha das Flores fornece a prova cabal de que a coordenação da gestão do território pelas entidades presumivelmente competentes é inexistente, ou muito mal funciona. Nos últimos três anos, ao mesmo tempo em que se projectava a referida sinalização dos seus 2 trilhos principais, já famosos nos mercados turísticos nacional e estrangeiro, a própria Secretaria do Ambiente (como é possível!), aprovou com inaudita leveza a localização de um aterro sanitário exactamente ao meio de um destes trilhos, com grandes responsabilidades também da autarquia local, a encarar a lixeira como “progresso”. O aterro sanitário, que era problema irresolúvel há décadas, parece finalmente avançar em 2003 nas Flores, quando no início deste mês de Março a imprensa nacional publicou artigos sensacionalistas sobre o falhanço total da política dos aterros em Portugal, 70% dos quais não funcionam, largando cheiros nauseabundos numa orgia de máquinas. A solução está obviamente na separação dos resíduos, mas não é esta a sede para a debater. A movimentação de camiões no percurso para um aterro leva à destruição do piso rodoviário, para além dos trilhos, e também é ruidosa, atirando os possíveis turistas da zona a milhas (ou ilhas…) de distância.
Ao longo do trilho mais percorrido - até pelos grupos recebidos nos nossos pequenos hotéis - da ilha mais pedestre dos Açores, junto do superlativo Miradouro do Cruzeiro da Fajãzinha que é com certeza um ex-libris do inteiro Arquipélago, abrir-se-á uma cratera permanentemente lavrada por uma ou mais escavadoras, à espera dos camiões das porcarias provenientes dos dois concelhos. Assim, decretar-se-á um verdadeiro suicídio turístico, piorando-se de forma irreparável a fama das Flores e de toda a Região, e tornando-se inútil e desnecessária qualquer intervenção de valorização do mesmo trilho e de outros nas proximidades.
Mas qual é o Futuro do Turismo? Excluída a priori ou salva pelos ventos da péssima oportunidade do turismo de massa, literalmente lixada nos seus melhores caminhos pedestres, aquela ilha com flores e mais alguma coisa está a ser projectada, juntamente com outras irmãs do Arquipélago, rumo a um futuro desconcertante. A promoção de uma lixeira despejada sobre o trilho principal das Flores equivale talvez à outra iniciativa recente, autorizada unilateralmente pelo governo da República no passado dia 16 de Março aqui na Terceira: a escandalosa recepção dos tão arrogantes quanto obtusos fautores da agressão ao Iraque, verdadeira maldição para o Planeta Azul. Foi, sem dúvida, o exemplo mais flagrante daquilo que não se deve fazer: associar os Açores à Guerra, em vez de à Paz, e pô-los nos olhos do mundo via satélite.
A hotelaria-elefante já tem seu caminho traçado na loja de porcelanas dos Açores, sendo provavelmente um mal necessário para a recepção de alguns grupos numerosos, daqueles desprezados e cuidadosamente evitados pelo turista individual. Mas, por favor, não continuemos a transformar os Açores numa base militar ou num tanque de combustível, nem num “Iraque Turístico”, bombardeando as ilhas com ficções que já perderam o seu charme noutros lugares! Assim como é turisticamente aconselhável travar brutal e peremptoriamente o investimento americano aqui na Terceira, é preciso combater e resistir à avançada indiscriminada do cimento em todas as ilhas, proporcionando outro tipo de política às empresas de construção civil.
O movimento invisível do turismo ecológico está vivo e atento ao que se passa nos arquipélagos atlânticos e, com uma solidariedade transnacional extremamente maior do que aquela entre grandes grupos económicos, trafica conhecimentos de milhões de pessoas impacientes, que associam outras regras de convivência planetária às suas preocupações ambientais.
Os Açores, verdadeiros caloiros na Faculdade de Turismo Internacional, ainda podem alegar a Pureza Natural como justificação perfeita para o seu atraso em décadas de aulas, mas se a perderem, serão rapidamente relegados ao seu esquecido cantinho, de chapéu com orelhas de burro. “Conservação rigorosa da Natureza” e “Caracterização e Conservação das Peculiaridades do Modelo Açoriano”: são estes os imperativos, entre outros, para que nesta Região Autónoma possa prever-se um futuro turístico saudável. Vou concluir com duas citações, a primeira do sempiterno Voltaire, que li num semanário e que me parece muito oportuna nos tempos que correm:
“…É muito perigoso ter razão em assuntos sobre os quais as autoridades estabelecidas estão completamente equivocadas…”
Estou consciente disso. Finalmente, para esclarecer qual é a minha atitude, em apresentar o rol de polémicas que estiveram pacientemente a ouvir e que alguns poderão ter interpretado, por engano, como um “quadro negro” da situação, ou como retórica desactualizada, associo-me ao espírito de Henry David Thoreau, autor de “Walden, ou A Vida nos Bosques”, bíblia para uma vivência ecológica e obra assim prefaciada ao leitor:
“Não me proponho escrever uma ode ao desânimo,
Mas a gargantear com o vigor de um galo matutino empertigado no poleiro,
Nem que seja apenas para acordar os vizinhos”
Dr. Pierluigi Bragaglia
Responsabile Ambiente e Turismo